Acrocórdons: não são verrugas

Mesmo parecendo óbvio, convém esclarecer que as lesões que o Júlio apresenta são acrocórdons, também denominados fibromas moles ou pólipos fibroepiteliais. E, mais uma vez, não: não são verrugas (recordemos que neste blog somos férreos defensores de tratar as coisas pelos seus nomes, e que a palavra verruga descreve lesões cutâneas produzidas pelo vírus do Papiloma Humano).

Os acrocórdons são pápulas de pequena dimensão, de consistência mole e de cor de pele ou hiperpigmentadas, que se localizam sobretudo no pescoço, axilas, virilhas, sulco inframamário e pálpebras. Para além de existir uma predisposição familiar, são mais frequentes em pessoas obesas. Não nos podemos esquecer que podem ser uma das manifestações de inúmeras síndromes como a acantose nigricans ou a Birt-Hogg-Dubé e que existem inúmeras lesões, como os carcinomas basocelulares pediculados ou os neurofibromas, que podem confundir-se. Mas hoje falaremos de acrocórdons “normais”.

São lesões benignas mas extremamente frequentes e que se calcula que estejam presentes em mais de 50% dos indivíduos saudáveis com mais de 50 anos. Esta proporção aumenta com a idade e em determinadas situações como a gravidez. No meu serviço (Hospital de Son Llàtzer, Palma de Mallorca) constituem o 8º motivo de consulta (representando mais de 3% das primeiras consultas). Isto, traduzido em números absolutos, quer dizer que por ano vemos mais de 250 doentes por este motivo (o que seria como ter um especialista contratado durante 2 semanas por ano).

254

Do ponto de vista morfológico, os acrocórdons e os fibromas pêndulos são lesões diferentes. Os acrocórdons podem aparecer como pequenas pápulas inferiores a 5 mm de diâmetro, de superfície rugosa e muitas vezes hiperpigmentada nos grandes sulcos cutâneos. Por sua vez, os fibromas pêndulos são lesões de maiores dimensões (podendo atingir vários cm), de superfície lisa e cor de pele normal.

Em todo caso, tanto uns como outros são lesões absolutamente benignas e assintomáticas. Apesar disso, em caso de torsão do pedículo, podem necrosar e causar dor e inflamação. Também podem inflamar facilmente, devido à sua localização, em situações de calor e sudação.

Histologicamente, os acrocórdons encontram-se revestidos por uma epiderme ligeiramente acantósica e o eixo de tecido conjuntivo é constituído por fibras de colagénio dispostas de forma laxa com abundante vascularização.

No que diz respeito ao tratamento, considera-se que a sua indicação é exclusivamente estética e, sendo verdade que muitas lesões podem causar sintomas, o senso comum faz com que excisemos de forma isolada aquelas que causam algum desconforto. Neste ponto, podemos reabrir o debate sobre se devemos tratar este tipo de lesões no nosso Serviço Nacional de Saúde. Podem existir opiniões para todos os gostos, desde os que pensam que teríamos que realizar este tipo de intervenções a pedido do doente (claro que sendo um problema que atinge mais de 50% da população, teríamos de contratar uma grande quantidade de pessoal), aos que opinam que no SNS não se excisa nem um acrocórdons. Pessoalmente, eu explico-lhes que não existe indicação terapêutica, mas se me dizem que têm um ou dois que os incomoda mais, eu tiro-lhos sem problemas. Se me dizem “ou todos, ou nenhum”, pois então sim, a minha posição é clara (nenhum). Outro debate seria quem deveria realizar o tratamento, se os dermatologistas, os médicos de família ou as enfermeiras. Pessoalmente penso que a excisão pode ser realizada por qualquer um, desde que bem instruído e com os meios necessários ao seu alcance.

Termino com uma série de conselhos para o doente que penso não serem despropositados:

– Os acrocórdons não são de etiologia viral e, por tanto, não são contagiosos.

– Os acrocórdons não têm mãe, nem pai. Tirar um ou vários não significa que não apareçam mais.

– Mais uma vez: não são verrugas. Por tanto não se eliminam da mesma maneira. Gaste o valor do Stop Verrugas da Dr Scholl no Euromilhões e, se ganhar, vá ao dermatologista privado para retirá-los.

– Mesmo que lhe tirem todas as lesões, vão aparecer mais (a não ser que seja atropelado por um autocarro à saída da consulta). É uma questão de tempo.

– Qualquer elemento de fricção na zona favorece o aparecimento de novas lesões. O “quero tirá-los para poder usar um fio de ouro” não é um bom motivo.

– Se tem uns quilos a mais e tem muitos acrocórdons, é outra excelente motivação para perder peso.

– Se os atar com um fio, necrosam e provavelmente caem. Mas não sem antes lhe causarem dor e uma possível infecção. Não é recomendável.

Anúncios

Um pensamento sobre “Acrocórdons: não são verrugas

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s