Satisfação com o Internato Médico em Portugal

Foi  publicado, na Acta Médica Portuguesa de Dezembro de 2016, um artigo interessante sobre a satisfação dos médicos internos portugueses, ano comum e formação específica nas várias especialidades, com o seu internato.

Trata-se de um estudo transversal que decorreu entre Abril e Maio de 2016. Foi utilizado o questionário Postgraduate Hospital Educational Environment Measure – PHEEMoriginalmente desenvolvido e validado no Reino Unido, traduzido e adaptado à realidade portuguesa. Este instrumento é composto por 40 afirmações, cada uma delas com hipótese de resposta com uma escala de Likert de 5 pontos, para um máximo global de 160 pontos. As afirmações podem ser agrupadas em 3 categorias destinadas a avaliar diferentes aspectos: autonomia, ensino e apoio. Foram adicionadas 3 perguntas relacionadas com a Coordenação/Direcção de Internato e com o Orientador.

A taxa de resposta global foi de 35%. De acordo com o local de formação, a taxa de resposta em Lisboa e Vale do Tejo foi de 39%. Medicina Geral e Familiar apresentou 43,06%, ocupando o 12º lugar em termos de taxa de resposta por especialidade.

A destacar que a Medicina Geral e Familiar (MGF) se encontra entre as 5 especialidades com maior grau de satisfação, a par de Endocrinologia/Nutrição, Cardiologia, Anestesiologia e Gastrenterologia. Pelo contrário, Medicina Legal, Oncologia Médica, Medicina Interna, Cirurgia Geral e Pneumologia foram as que apresentaram grau de satisfação mais reduzido.

Das 43 afirmações do questionário, identificaram-se seis cuja pontuação obtida foi a mais elevada (maior ou igual a 3,0 na escala de Likert). Destaca-se que os médicos internos, no global, tendem a considerar que não ocorre discriminação racial nem sexual no seu local de trabalho (…), têm boa colaboração com os outros médicos no seu nível de formação, consideram que o seu orientador de formação tem conhecimentos sólidos para proporcionar uma boa formação e têm oportunidade de participar ativamente em eventos formativos. No extremo oposto, as cinco afirmações cuja pontuação foi a mais baixa (menor ou igual a 1,6 na escala de Likert), revelam: os médicos internos tendem a considerar que não têm tempo de estudo definido no seu posto de trabalho; não existem boas oportunidades de aconselhamento para médicos internos que não consigam terminar o seu Internato Médico; a sua instituição de colocação não tem alojamento de qualidade para médicos internos, especialmente quando estão de urgência; inexistência de um manual informativo para os médicos internos; ausência de acesso adequado a aconselhamento sobre a carreira.

Na análise por região, a satisfação é globalmente superior na Madeira e Açores sendo o Algarve a região com menor satisfação. Lisboa e Vale do Tejo aparece imediatamente antes do Algarve, com níveis de satisfação globalmente inferiores ao Norte e Centro do país.

Em relação ao ano de internato, e contrariamente ao que seria de esperar, parece haver uma tendência para diminuição da percepção de autonomia ao longo do internato. Também a satisfação global vai diminuindo o que, segundo os autores, pode dever-se à eventual progressiva tomada de consciência dos problemas/limitações.

Especificamente em relação a MGF, a destacar a menor satisfação com a Coordenação/Direcção de Internato quando comparada com Saúde Pública e os grupos “Especialidades MCDTs”, “Especialidades Médicas” e “Especialidades Cirúrgicas”. A satisfação com o Orientador assim como a percepção de apoio também são menores do que grupos de especialidades hospitalares mas superiores à de Saúde Pública. Pelo contrário, a percepção de autonomia, de ensino e a soma global dos itens do PHEEM é superior na MGF.

Apesar de apresentar algumas limitações, este estudo abre portas à reflexão e pode servir de base para a discussão conjunta com vista a melhoria continua de qualidade do internato. Porque será que em MGF a satisfação com a Coordenação/Direcção de Internato é menor? Sendo á partida uma relação mais próxima não deveria ser mais satisfatórias, aliás, como referido no artigo para os hospitais de tipologia I? Quanto ao Orientador, será a relação/colaboração inevitavelmente muito estreita que condiciona a insatisfação? Estará relacionado com o elevado número de internos e com a obrigação de encontrar Orientadores em pessoas desmotivadas para o efeito? Quais as estratégias para contornar este problema? Por outro lado, o que estamos a fazer bem para que o nível global de satisfação seja maior na MFG? Qual o caminho que devemos/ queremos seguir?

Fica o desafio para que todos possamos dar o nosso contributo, nomeadamente, nas reuniões que o novo Coordenador do Internato de MGF da ARS LVT, Dr Daniel Pinto, já iniciou com Internos e Orientadores.

Vale a pena ler o artigo completo disponível aqui.

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