O bicho do pé

No nosso caso, ainda que como vos referi a paciente vinha já diagnosticada pelo seu médico, não pudemos evitar a surpresa quando ao raspar uma das lesões e observa- la ao microscópio vimos esta imagem:

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Com isto entende-se perfeitamente o nome da entidade no Brasil, “o bicho do pé”, ainda que se conheça popularmente como pulga da areia, chica, chigga, chigger, chigo, jiga, Jagger, moukardam, nigua, pico, pique, piroque, puce chique, e suthi.

A tungíase é a infeção causada pela penetração na pele da fêmea fecundada da pulga Tunga penetrans (Insecto, Siphonaptera: Tungidae), insecto hematófago que afeta principalmente o homem e o porco, originário da América Central e do Sul, ainda que também se possa encontrar noutros países (Caraíbas, África Central e Oriental e países do Oceano Índico).

A pulga adulta é de cor castanha avermelhada e mede 1mm de comprimento (a fêmea grávida pode chegar a 1cm). Depois da fecundação o macho morre e a fêmea inicia um ritual de saltos até que morre ou consegue penetrar na pele do homem ou de um animal. Então suga o sangue do hospedeiro e desenvolve-se até à colocação dos ovos (entre 150-200). Aos 7-10 dias a fêmea morre e expulsa os ovos maduros, que caem no chão, emergindo as larvas aos 3-4 dias, e formando um casulo às 2 semanas. Ao fim de uma semana, a crisálida transforma-se em adulto. A tungíase costuma adquirir-se ao caminhar descalço ou com sandálias em áreas endémicas.

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As zonas afetadas com maior frequência são os pés (dedos, plantas, zonas interdigital e subungueal), ainda que se possa apresentar noutras localizações. Clinicamente observa-se uma ou várias pápulas eritematosa ou castanhas de 2-3mm, com um ponto negro central. Estas lesões podem causar prurido ou dor ao roçar ou com a pressão. O processo completo, desde a infeção até à cura, demora umas 4-6 semanas, e divide-se em cinco estádios segundo a classificação de Fortaleza: fase de penetração, fase de hipertrofia, fase de “halo branco”, fase involutiva e fase residual.

A sobreinfecção bacteriana é a complicação mais frequente, tendo-se descrito casos de lingangite, tétano, celulite, osteomielite, gangrena e amputação espontânea dos dedos, ainda que o mais frequente seja uma doença sem demasiada transcendência clínica.

O diagnóstico da doença baseia-se na presença de lesões típicas, habitualmente localizadas nos pés, num paciente proveniente de zonas endémicas. A biopsia demonstra hiperqueratose, paraqueratose e acantose, observando-se o corpo da pulga na derme superficial, com cavidades pseudoquísticas (órgãos digestivos e respiratórios) e ovos, com infiltrado inflamatório perilesional misto. No nosso caso, realizamos uma biopsia e esta foi a imagem obtida. A seta verde indica os ovários da pulga cheios de ovos em desenvolvimento.

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Recentemente, a dermatoscopia demonstrou ser útil para confirmar o diagnóstico.

O tratamento de eleição consiste na excisão cirúrgica do inseto, mediante cirurgia ou curetagem das lesões. Habitualmente é suficiente a utilização de um antibiótico tópico, ainda que se as lesões forem múltiplas se recomende a via sistémica. A ivermectina oral (200 mg/Kg com um segunda dose aos 10dias) demonstrou ser eficaz em casos de múltiplas lesões. Além disso recomenda-se a vacina antitetânica. Nós realizamos curetagem das lesões na consulta, com anestesia local.

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A profilaxia primaria em viajantes para zonas endémicas consiste em evitar caminhar descalço e na utilização de insecticidas ou repelentes de insetos.

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