Doutora, os óculos aleijam-me…

Depois de uma pausa imposta pela 1ª edição do curso de leitura crítica de artigos científicos (da qual vos daremos conta em breve) voltamos aos nossos casos de dermatologia.

Vamos então à derme da questão! A frase preferida dos dermatologistas, claro… que não seja apenas uma triste declaração de intenções.

Apresento-vos um senhor de 71 anos, hipertenso medicado, pedreiro reformado, referenciado pelo seu médico de família por uma lesão na face lateral direita do nariz, definida como uma crosta recorrente com alguns meses de evolução, que o paciente atribui a um traumatismo prévio com uma planta, enquanto arranjava o jardim. Como os óculos lhe roçam no mesmo sítio, acha que é por isso que a crosta não desaparece, embora tenha aplicado uma pomada à base de mupirocina durante um mês.

À exploração física não apresenta outras lesões parecidas.

À partida é um caso simples, sem rasteira, muito frequente nas nossas consultas, mas em primeiro lugar e antes que nos precipitemos, lembrem-se que nós dermatologistas somos um bocado picuinhas no que toca à precisão da descrição do que os nossos olhos veem. Mas não é por sermos umas aves raras (bom, talvez um pouco). Tudo é relativamente simples com o paciente à nossa frente e hoje em dia, com a fotografia digital, temos oportunidade de captar praticamente tudo o que nos aparece na consulta. Ainda assim, a maior parte de nós não tira fotografias a todos os pacientes, e tem de passar para a história clínica aquilo que observa. Isso consegue-se seguindo umas regras elementares, explicadas na primeira aula da faculdade (lesões dermatológicas básicas), mas fundamentais para que, ao descrever uma lesão, outro profissional que consulte a história, e mesmo na ausência do paciente, possa ter uma noção bastante aproximada do que está em causa.

post 02

Pois então, trata-se de uma placa com cerca de 2cm, na localização já mencionada, de bordos mal definidos (não se consegue delimitar a olho nú o limite entre pele sã e lesionada),  com o centro em crosta (se a levantássemos encontraríamos a úlcera). Embora seja difícil observar na fotografia, nota-se que à volta da crosta a pele brilha com intensidade (reflexo luminoso do flash).

Por outro lado, indo além da lesão que nos traz o paciente, verificamos que se trata de um homem de fototipo baixo (pele clara), com história de fotoexposição laboral crónica, devido à sua profissão, e que agora que está reformado, se dedica a cuidar do seu jardim.

Bom, aceitam-se apostas sobre o diagnóstico mais provável para este caso, mas gostaria também de ouvir opiniões sobre a atitude a seguir: partimos diretamente para excisão ou fazemos biópsia antes?

Para gerar polémica, digo-vos que a nossa lista de espera é de 2 meses para a via normal, de 1 mês para prioritários, e que temos uma consulta “express” em que podemos ver o paciente em 10 dias. Que prioridade de seguimento seria a melhor?

Desde já adianto que, excluindo o diagnóstico, não há opcões certas ou erradas e que tudo é discutível dependendo do caso e da experiência de cada um.

Vamos lá.



(agradecemos os comentários realizados :) )

Origem do +dermapixel

Post original e créditos da foto para: Rosa Taberner

Traduzido por: Isa Cavaleiro
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7 pensamentos sobre “Doutora, os óculos aleijam-me…

  1. A vontade aqui é mesmo fazer uma biópsia de pele.

    Pela localização e pelas características da lesão (ulceração central, bordos brilhantes) faz-me pensar num basalioma. Mas se fosse só um basalioma, parecia ser básico demais. Mas não excluo um melanoma maligno amelanótico, daí a importância da biópsia.

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  2. Parece c espinocelular mas seria importante fazer primeiro biópsia para perceber a urgência da abordagem seguinte (basalioma vs espinocelular) depois cirurgia de Mos idealmente.

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  3. Na minha opinião é um espinocelular pelos seguintes motivos: características da lesão (crosta, contornos irregulares, não se identifica rede capilar subjacente, não parece estar indurado…) fototipo da pele, exposição solar laboral e a história de traumatismo directo, se bem que esta também pode estar presente no basalioma.
    Marcaria cirurgia como prioritário, com biópsia pós cirúrgica.

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  4. A mim parece basalioma. Sinceramente essa historia de 2 meses de espera para consultas normais já me parece um sonho porque no meu hospital de referencia o tempo de consulta normal é mais de 1 ano…e se eu colocar prioritário espera igual, por isso nem sei…

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