O Tratamento Tópico do Acne Leve

Não é necessário ser nenhum especialista em Dermatologia para afirmar que o que a Ana tinha era acne. Até aqui, tudo bem. O caso desta semana tem a particularidade de afetar uma menina pré-adolescente. Situação bastante comum, tendo em conta que o acne vulgar é a lesão cutânea mais frequente na idade pré-pubertária e adolescência, com uma prevalência aos 12 anos de 70-87%. Nem tão pouco os 12 anos são a idade mínima para apresentar acne, já que (além das formas do lactente e infantis), quase 80% das meninas entre os 9 e 10 anos apresentam este tipo de lesões. Por outro lado, a maior parte dos estudos clínicos dos diversos agentes terapêuticos foram realizados em pacientes com mais de 12 anos, tornando-se numa dificuldade acrescida na hora de recomendar tratamentos nos mais jovens.

 

Hoje iremos rever entre outros, este artigo da revista Pediatrics de 2013 para tentar retirar algo claro sobre esta temática, sobretudo no que respeita ao tratamento.

Em primeiro lugar, existem diferenças atendendo à idade de apresentação. Assim, falamos de acne neonatal (em lactentes com menos de 6 semanas de vida), acne infantil (entre 6 semanas e 1 ano), acne da média infância (entre 1-7 anos), acne pré-adolescente (7-12 anos ou antes da menarca nas meninas) e acne do adolescente (12-19 anos ou depois da menarca).

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Hoje centrar-nos-emos no acne do pré-adolescente, que resulta da adrenarca e da maturação ovárica ou testicular, podendo ser o primeiro sinal desta etapa pubertária. Clinicamente o acne nesta faixa etária caracteriza-se por um predomínio de comedões na testa e na zona centro-facial (conhecida como “zona T”) com relativamente poucas lesões inflamatórias. Também é bastante típico desta apresentação precoce a presença de comedões nos condutos auditivos externos. Normalmente autolimitado, mas perante a existência de lesões muito inflamatórias ou severas nessa zona, deve-se considerar a possibilidade de anomalias endocrinológicas com estudos pertinentes.

Geralmente, o tratamento do acne nestes pacientes não difere do usado nas idades mais adultas, baseando-se como sempre na fisiopatologia do acne que se sustenta em 4 pilares: a hiperplasia sebácea, as alterações na diferenciação folicular, a colonização do folículo pela bactéria Propionibacterium acnes e consequentemente a resposta imune/inflamação.

É útil tentar categorizar o quadro clínico com base nas lesões predominantes, sejam elas comedões (abertos ou fechados) ou lesões inflamatórias com pápulas eritematosas, nódulos ou lesões quísticas, todavia em inúmeras ocasiões os padrões misturam-se. A severidade do acne calcula-se atendendo ao número de lesões, extensão das mesmas e ao tipo e embora esta classificação não esteja isenta de subjetividade, falamos de acne leve, moderado ou severo. O primeiro problema com que nos podemos deparar é que em muitas ocasiões a percepção de severidade é muito distinta para o médico e para o paciente, já que está mais que demonstrado que o impacto na qualidade de vida do paciente, não se correlaciona  necessariamente com a sua severidade “real”. Curiosamente nestes pacientes pré-pubertários, as situações mais frequentemente assistidas nestas consultas, são mães excessivamente preocupadas e meninos ou meninas que aparentemente dão pouca importância às suas lesões de acne. Evidentemente é algo a ter em conta, uma vez que pode condicionar o cumprimento terapêutico: Quem vai aplicar o creme nestas idades? A criança ou os pais?

Os principais objetivos terapêuticos no acne serão, na medida do possível, reduzir a produção de sebo, prevenir a formação de microcomedões, suprimir o P. acnes e reduzir a inflamação para prevenir as cicatrizes. Nestes pacientes pediátricos a tendência é (salvo nos casos graves) optar por tratamentos menos agressivos e evitar o aparecimento de resistências microbianas. A educação do paciente e dos seus familiares e o estabelecimento de expectativas razoáveis e realistas ajudar-nos-á a melhorar a eficácia e a adesão ao tratamento. Uma vez mais, embora não se trate de uma patologia potencialmente grave, é necessário gastar tempo em explicações oportunas.

Estamo-nos a alongar muito e ainda não começamos a falar sobre os tratamentos, sendo que só abordaremos os pontos essenciais sobre as diferentes alternativas (que poderemos tratar com maior detalhe noutro dia):

  • Peróxido de benzoílo, a 2,5-10%, continua a ser um tratamento útil e seguro, tanto em monoterapia como em terapia combinada. Além disso, pode minimizar as resistências do acnes quando se usa concomitantemente com antibióticos.
  • Retinoides tópicos. Podem ser utilizados em monoterapia ou em terapia combinada. A tretinoína em gel 0,05% está aprovada pela FDA para maiores de 10 anos, e o adapaleno 0,1% para maiores de 9 anos. O principal problema dos retinoides é a sua tolerância pelo seu efeito irritativo e descamativo, que normalmente não é bem aceite pelos pacientes.
  • Antibióticos. Os antibióticos tópicos não se recomendam em monoterapia por desenvolverem resistências bacterianas (sim, são baratos e seguros mas isso não significa que sejam um bom tratamento). Podem, porém, utilizar-se em combinação com outros produtos. No caso de lesões inflamatórias mais severas, podemos recorrer aos antibióticos orais como a minociclina ou doxiciclina todavia estas não devem usar-se em menores de 8 anos.

A tendência atual no acne leve-moderado é utilizar combinações de tratamentos como o peróxido de benzoílo + clindamicina (Duac®), peróxido de benzoílo + adapaleno (Epiduo®) ou tretinoína + clindamicina (Acnatac®). O INFARMED aprovou a combinação peróxido de benzoílo + adapaleno a partir dos 9 anos, as  outras combinações só podem ser dadas a partir dos 12 anos.

Outras recomendações nestes pacientes é promover a lavagem da cara uma ou duas vezes por dia com um sabão adequado, não abusar dos tónicos faciais, não utilizar cremes hidratantes para combater a descamação provocada pelos tratamentos (a não ser que tenha sido prescrita pela médico) e paciência. Muita paciência.


(agradecemos a honestidade intelectual de não colocar nos comentários respostas do post original :) )

Origem do +dermapixel

Post original e créditos da foto para: Rosa Taberner

Traduzido por: Inês Teixeira
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