Guia para infectar estudantes de medicina com cepticémia

 

Partilhamos convosco um texto que nos inspirou, escrito por um grupo de estudantes de Medicina em colaboração com o Dr. Juan Gérvas, bem como a sua versão em vídeo, criada pela Mónica Lalanda. Fala-nos sobre uma doença rara mas desejável – chamada cepticémia. Esperamos contagiar-vos em grande escala!

A cepticémia (termo cunhado em 1989 por Petr Skrabanek e James McCormick) é uma doença com baixo risco de contágio, contra a qual se tenta vacinar os estudantes nas faculdades de medicina. Esta doença caracteriza-se pela presença de pensamento crítico, que gera oposição às afirmações que carecem de fundamento empírico verificável. A sua vacina confere uma tripla perda de capacidades: de crítica, de ética e de propostas de melhoria.

Este Guia para infectar estudantes de Medicina com cepticémia nasceu de um projeto iniciado no Seminário de Inovação em Cuidados Primários (SIAP) que decorreu em Bilbao (País Basco, Espanha) em Fevereiro de 2016, sobre “doentes que choram e outras consultas sagradas”. A iniciativa partiu de Paula Rodríguez Molino (estudante de medicina em Santiago de Compostela, paularmolino@gmail.com), contou com o apoio de Borja Apellaniz Aparicio (estudante de medicina em Zaragoza,borjaapap@gmail.com) e com a colaboração de múltiplos clínicos, internos e estudantes que participaram no SIAP-Bilbao. Após a fase inicial de discussão de ideias, chegou-se à versão atual do manuscrito com o apoio de Juan Gérvas (coordenador dosSIAP, jjgervas@gmail.com). Aceitam-se recomendações, críticas e sugestões de melhoria.

Para contagiar com cepticémia os estudantes de medicina apresentamos as propostas que se seguem.

Propostas para estudantes:

  • Reflete criticamente sobre o que os professores te ensinam, pois ninguém é infalível. A sua interpretação dos factos não é a verdade absoluta. Identifica os seus vieses (é impossível não os ter).
  • Pergunta, participa e discute com estudantes e professores. A ciência e a aprendizagem avançam com dúvidas e debates.
  • Aprofunda, lê e amplia os teus conhecimentos. Estuda para ti e para os teus doentes, não para os exames. “O pior livro é melhor que o melhor apontamento”, e incomparavelmente superior a um powerpoint.
  • Procura ativamente formação. Averigua que iniciativas existem à tua volta (dentro e fora da faculdade), e apoia-as. Organiza atividades para partilhar esse conhecimento com mais estudantes.
  • Adere à formação não-formal: as revistas, as instituições, os blogs e as redes sociais têm recursos geralmente mais atualizados do que as aulas.
  • “O médico que só sabe de Medicina, nem Medicina sabe”.  Aprende sobre outras culturas e valores com outras ciências, profissões, doentes e ativistas.
  • Organiza-te, queixa-te e propõe melhorias. Conhece os teus direitos e deveres dentro da faculdade. Participa ativamente nos órgãos de decisão, a faculdade e os docentes agradecem as críticas construtivas.
  • O médico que serás amanhã define o estudante que és hoje. Não te desculpes com a falta de estímulos externos, exerce a autocrítica. Não caias no cinismo, pode-se sempre trabalhar e melhorar “o que há”. Promove a mudança começando por dar o exemplo.

Especialmente na prática clínica:

  • Sê proactiv@, pergunta e mantém-te motivad@. Mantém os olhos abertos, há oportunidades de aprendizagem desde a consulta até à cafetaria ou à sala de espera.
  • Aproveita os recursos e pessoas disponíveis. Valoriza a experiência e os conhecimentos do teu tutor, pois de todas as oportunidades se podem retirar lições. Os profissionais e os estudantes de outras áreas, assim como os doentes e os seus familiares podem contribuir muito para a tua aprendizagem, se fizeres perguntas com respeito e sem medo.
  • Escolheste o privilégio e a responsabilidade de exercer medicina, que nasce da sinergia da ciência, da consciência e da coragem. Estuda continuamente, evita a lepra social (aquilo que dói aos doentes-famílias-comunidades tem de te doer a ti também) e envolve-te na prestação de cuidados de qualidade respeitando a equidade (vertical, mais cuidados a quem mais precisa, e horizontal, os mesmos cuidados para as mesmas necessidades).
  • Trata os doentes e os seus familiares como o/a profissional que queres ser, não caias na rotina desumanizada que te rodeia. Apresenta-te se não te apresentam, dá a mão e mantém uma linguagem não-verbal afável. Mostra empatia, olha nos olhos, pede permissão antes do exame físico. Sê respeituos@ e esquece o telemóvel: o doente merece toda a tua atenção. Explora os medos e as inseguranças dos teus doentes, sem os desvalorizar. Tranquiliza e abraça quando for necessário, acompanha a vulnerabilidade.
  • “Não há doenças, há doentes”. Não te deixes deslumbrar pelas tecnologias, pelas normas de orientação, pela Medicina Baseada em Evidência; são necessárias, mas cada doente é único na sua situação.
  • Considera que o diagnóstico tem de ser oportuno e certo, e que às vezes o diagnóstico precoce não é conveniente. Pode iniciar-se uma terapêutica prudente sem que se chegue a um diagnóstico definitivo; estuda e aprende a fazê-lo. Por outro lado, aceita que a medicina não evita a morte, apenas algumas causas de morte, e um diagnóstico mortal não é um fracasso, é somente o começo de um processo de prestação de cuidados para alcançar uma boa morte.
  • Sê humilde. Mantém a mente aberta a críticas e sugestões.
  • Quando fores tu o/a doente, aproveita para aprender dessa perspectiva.

Propostas para docentes:

  • Apresenta-te sempre. Explica os teus conflitos de interesse e vieses aos estudantes e aos doentes.
  • Ajuda a formar estudantes crític@s e étic@s dando o exemplo.Não receies partilhar as tuas dúvidas, o exercício da ética da ignorância é um aspecto chave na relação médico-doente e docente-estudante.
  • Debate ideias, nas aulas e na clínica. O básico pode aprender-se em casa, usa o tempo presencial para realçar os aspectos mais polémicos. Dedica uma parte do teu tempo docente a apresentar temas polémicos, da atualidade, ou temas que os alunos considerem importante discutir. Se o tempo presencial é curto, propõe espaços virtuais.
  • Oferece bibliografia complementar de forma a apresentar perspectivas diferentes. Os estudantes devem aprender a defender posturas fundamentadas, baseadas na melhor ciência possível.
  • Estimula os estudantes a participar ativamente. “Diz-me e eu esqueço, ensina-me e eu lembro, envolve-me e eu aprendo”. Ao explicar, centra-te nos motivos e nos valores que te levam a fazê-lo.
  • Investiga outros grupos e iniciativas externos à Faculdade que possam interessar aos estudantes, participa neles e divulga-os. 
  • Ajuda a garantir que os estudantes tenham voz independente dentro da faculdade. Garante tempo e meios para falar de problemas sobre os métodos de ensino e o plano curricular. Sê humilde e pede a opinião dos estudantes sobre o teu ensino.
  • A avaliação é parte da docência. Admite anulações e impugnações baseadas em livros, documentos e artigos, e não na apresentação usada na aula. Não exacerbes a competitividade, é contraproducente. O objectivo não deve ser a aprovação na disciplina, mas sim aprender. Cria avaliações que discriminem de maneira adequada e assegura medidas para evitar fraudes nos processos de avaliação.
  • Ensina @s estudantes a resistir à frustração face a doentes que não se curam, que são a maioria, e para que aceitem que o objectivo da medicina é por vezes curar, mas sempre aliviar e acompanhar.
  • Contribui para que os estudantes se especializem em humanidade antes de se graduarem em medicina. Que aprendam a explorar e a respeitar o físico, o psíquico e o social; a cultura, as expectativas e os valores dos doentes-famílias-comunidades. Que saibam identificar e combater o erro médico. Que sejam científicos, “humanos”, empáticos e assertivos. Que aprendam as competências sociais necessárias para atender de maneira digna todos os doentes.

Texto traduzido por Catarina Viegas Dias
Editora +mgf

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s