Alopecia de tração: mais frequente na raça negra

Parece ser de senso comum: este tipo de penteados não podem ser bons para o cabelo. E, no entanto, as práticas culturais e os costumes prevalecem sobre a lógica, e as alopecias de tração são frequentíssimas nestes pacientes. Mas, para entender um pouco melhor porque acontece isto, temos que perder um pouco de tempo tentando explicar as diferenças estruturais do cabelo dos brancos e dos negros.

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Porque existem 4 tipos de cabelo: liso, ondulado, helicoidal e espiral. Este último é o característico das pessoas de pele negra. O cabelo espiral tem a forma curvada e está orientado paralelamente à superfície cutânea. Se o cortássemos transversalmente, teríamos uma forma elítica ou aplanada (diferente da maioria dos brancos e orientais, com cabelo liso e reto, e transversalmente de forma circular). O problema é que isto dá lugar a um cabelo crispado, que é mais frágil, que se parte com maior facilidade e enriça.

Além disto, tem tendência a formar nós, fissuras longitudinais e roturas a nível dos talos pilosos. Tudo isto contribui, em grande parte, para um tipo de patologia tricológica característica destes pacientes.

Mas isto não é tudo. Estudos ultraestruturais têm demonstrado que há menos fibras elásticas, fibras estas com função de anclagem dos folículos pilosos na derme, nas pessoas de raça negra. Além disso, os melanossomas estão presentes tanto no bulbo como na bainha externa da raiz (os brancos só têm melanossomas no bulbo). E os grânulos de melanina são maiores (claro que isto não se relaciona com a patologia). Mas sim, está demonstrado que a densidade do cabelo (nº de folículos pilosos/superfície) é menor em relação aos brancos. Pelo contrário, não existem diferenças no tipo de queratina do cabelo de brancos e negros.

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Voltando à Blessing, nossa paciente. Está bastante claro que o que lhe falta não são vitaminas. No entanto sobra tração por todo o lado. E se lhe somarmos as características particulares do cabelo destes pacientes a questões de tipo cultural (como o estilo do penteado, com uma tradição muito estendida entre a população africana de fazer penteados nos quais o cabelo é submetido a uma tensão constante e intensa), nos dará como resultado este tipo de alopecia, denominado alopecia de tração. Estima-se uma prevalência de 1% entre indivíduos adultos nigerianos (e parece-me que a percentagem está subestimada).

O diagnóstico é simples se se conhece a entidade, e não são necessários outros tipos de explorações. Felizmente, costuma ser reversível ao eliminar o estímulo que a provoca, embora nem sempre seja tão simples. O tratamento, portanto, consiste em tentar fazer entender a paciente (costumam ser mulheres) que a causa do seu problema é o tipo de penteado.

Não sabemos o que aconteceu com Blessing, mas por experiências anteriores, sim, posso dizer-vos que é muito difícil que confiem na nossa teoria e a maioria dos pacientes não modificam os seus hábitos de penteados. Não tenho outras fotografias da nossa paciente, e as que ilustram o post de hoje são de uma viagem a Camerún com os Médicos do Mundo que tive oportunidade de fazer há alguns anos atrás. E se querem saber mais sobre patologia dermatológica em pele negra, aproveito para fazer publicidade a um atlas que escrevemos (com os meus colegas do serviço) há alguns anos atrás, de venda em Amazon (claro que se tiverem paciência, por aqui iremos estudar os diferentes temas).

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