Pediculosis Capitis: não é só coisa de crianças…

Matilde, como muitas avós, tinha pediculosis capitis. Não foi necessário muito para ver umas quantas lêndeas, assim como um piolho vivo bem instalado num cabelo da nossa paciente. É curioso verificar como os adultos aceitam o diagnóstico de pediculosis capitis com uma incredibilidade inusitada. A fase de negação é muito mais prolongada do que a pior das enfermidades. Têm assumido que é coisa de crianças ou de pessoas com maus hábitos de higiene, mas a realidade mostra-nos que não é assim.

O piolho da cabeça (Pediculus humanus capitis) é um bicharoco que facilmente se adapta e que pode encontrar-se em qualquer parte do mundo. As infestações por este inseto podem cursar em indivíduos de qualquer nível sócio-económico, sendo muito mais frequentes na população infantil. Curiosamente, os rapazes são menos suscetíveis à infestação que as raparigas (extrapolável a adultos). Também os pacientes de raça negra apresentam menor incidência (pensa-se que os piolhos terão maior dificuldade em infestar o correspondente tipo de cabelo). E não: não parece haver nenhuma relação entre o comprimento do cabelo (a não ser que esteja completamente rapado).

p_capitis (1)

Ainda que pareça mentira, atualmente o mecanismo de contágio continua desconhecido. O contacto direto continua a  o pilar fundamental, mas persiste a controvérsia relativamente ao papel de determinados objetos na transmissão de piolhos. Alguns estudos e o senso comum são unânimes em sugerir que a partilha de toalhas, pentes (entre outros) pode contribuir no contágio, mas nem todos os estudos são unânimes nessas ilações.

Vamos conhecer um pouco mais sobre o bicharoco em questão. O piolho da cabeça é um inseto de 3-4 mm (a fêmea é ligeiramente maior que o macho). Ambos os sexos estão preparados para succionar sangue e têm umas patas adaptadas para a fixação no cabelo. O período vital de um piolho fêmea é sensivelmente de 1 mês, durante o qual porá 7 a 10 ovos por dia, cimentando-os firmemente na base do cabelo. Os ovos (ou lêndeas) são umas cápsulas ovaladas que eclodem em 8 dias, libertando ninfas cujo período de maturação também ronda os 8 dias. Um piolho adulto pode sobreviver até 55 horas sem uma “vítima” para se alimentar. Ah! E os piolhos não saltam como as pulgas nem são capazes de usar animais como vetores de transmissão (não vale culpar o cão).

Pode parecer estranho, mas a maior parte das infestações por piolhos são assintomáticas. É surpreendente como algumas crianças podem albergar uma grande quantidade de fauna na sua cabeça e estar tão tranquilos. O prurido no couro cabeludo, pescoço e região retroauricular constitui uma reação alérgica à saliva do piolho (chupam-nos o sangue e ainda nos cospem, desgraçados…), a qual é injetada durante a fase de sucção. Não é rara a presença de adenopatias cervicais, ou inclusivamente episódios febris associados a uma infeção estafilocócica secundária.

Parece óbvio, mas o diagnóstico baseia-se na visualização direta dos piolhos vivos. As lêndeas identificam-se mais frequentemente que os parasitas adultos, mas a visualização directa de lêndeas sem piolhos não significa necessariamente que exista uma infestação ativa, uma vez que as lêndeas podem subsistir durante meses após tratamento. Num estudo com mais de 1.700 alunos, objetivou-se infestação por piolhos em 1,6% da amostra, enquanto em 3,6% apenas se detetou lêndeas, e destes, após 2 semanas, só 18% passaram a ter infestação ativa.

É neste momento que os tratados de Dermatologia fazem referência ao diagnóstico diferencial. Mas… podem os piolhos confundir-se com outra coisa? Efetivamente sim, e desde o primeiro momento em que chegam à consulta de Dermatologia.  Em certas situações o diagnóstico não é linear, sobretudo quando o exame objetivo não é realizado de forma sistemática, sem pressa. Como já referimos anteriormente, a visualização direta de lêndeas é um processo simples e essencial para o diagnóstico, mas inclusivamente estas podem confundir-se com resíduos de processos descamativos no couro cabeludo; no entanto as lêndeas encontram-se fortemente aderidas ao cabelo e será difícil arrancá-las. A designada “pedra branca” é uma infeção fúngica (causada por espécies de Trichosporon) que se manifesta como pequenos nódulos aderidos ao cabelo e que pode confundir-se com lêndeas. A visualização direta ao microscópio ajudará a resolver o dilema, em caso de dúvida.

Em modo de resumo, e para quebrar alguns mitos, finalizamos com 10 frase-chave:

  • Os piolhos podem afetar qualquer indivíduo, independentemente dos seus hábitos de higiene. Não obstante, a aglomeração de indivíduos favorece o contágio.
  • Os adultos também podem ter piolhos.
  • Os piolhos não saltam de um indivíduo para outro.
  • As raparigas de cabelo comprido não têm piolhos mais frequentemente que as de cabelo curto.
  • As raparigas têm maior probabilidade de ter piolhos que os rapazes.
  • Os rapazes e raparigas de raça negra são menos afetados que os de raça branca.
  • A maioria das crianças com piolhos não apresenta nenhum sintoma.
  • Os animais não são vetores de transmissão (deixemos de culpar os gatos).
  • Os piolhos têm uma sobrevida de 55 horas fora do seu hóspede.
  • A presença de lêndeas sem que se evidencie piolhos vivos não significa uma infestação ativa.

 

(agradecemos a honestidade intelectual de não colocar nos comentários respostas do post original 🙂 )

Origem do +dermapixel

Post original e créditos da foto para: Rosa Taberner

Traduzido por: André Santos
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Um pensamento sobre “Pediculosis Capitis: não é só coisa de crianças…

  1. Nem consigo contar as crianças a quem já fiz o diagnóstico. Adolescentes menos. Mas já tive 3 adultos que também estavam incrédulos com o “afinal não é alergia!”

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