Milia neonatal e a pele do recém nascido

Obrigado a todos pelos contributos. Cada vez somos mais a comentar e a seguir o +mgf e o dermapixel!

Como este caso era fácil, a Dra. Rosa faz uma resposta mais além da Milia:

A Aina tinha mília neonatal (ou quistos de mílio). Nada de importante, já que aparecem em 40-50% de todos os recém-nascidos como consequência da retenção de queratina na derme, em forma de diminutas pápulas de 1-2mm, de cor branca ou amarelada, particularmente proeminentes no nariz, região malar, queixo e testa. Podem chegar a ser numerosas e, por vezes, formam agrupamentos. Por vezes podem inclusivamente chegar a aparecer noutras partes do corpo, como no tronco, extremidades ou genitais (ainda que isto seja menos frequente). O mais habitual é que desapareçam espontaneamente até à 3ª ou 4ª semana de vida (por vezes persistem até aos 2-3 meses) sem necessidade de realizar qualquer tratamento.

Ainda que se trate de um processo fisiológico normal, vale a pena saber que em casos de extensão anómala ou persistente para além dos 3 meses há que pensar noutras patologias, nas quais esta pode ser uma das suas manifestações, como a tricodisplasia hereditária (hipotricose de Marie-Unna), formas distróficas de epidermólise bolhosa, síndrome de Rombo, etc.

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Porque insistimos em não realizar qualquer tratamento? Comecemos pelo princípio: a pele do bebé. Porque um recém-nascido não é, em absoluto, uma versão reduzida de um adulto (algo bastante claro para os pediatras), e a pele é um dos órgãos em que essas diferenças são mais notórias. A pele do bebé é sensivelmente mais fina que a de uma adulto (entre 40-60%), tem menos pelo e a união entre derme e epiderme é muito mais débil. Tudo isso faz com que o recém-nascido apresente um maior risco de feridas, absorção percutânea e infeções relacionadas com a pele, o que se agrava em bebés prematuros, especialmente nos nascidos antes das 32-34 semanas de gestação, com problemas associados a um estrato córneo imaturo (a camada mais superficial da pele), incluindo um aumento na perda de água transdérmica (TEWL), o que pode traduzir-se numa maior morbilidade associada a desidratação, desequilíbrio hidroeletrolítico e termorregulação.

Vale a pena frisar os riscos de toxicidade percutânea a partir de produtos aplicados topicamente em bebés (especialmente prematuros), que se produz por um duplo mecanismo: através do estrato córneo, por via transdérmica, e através do folículo pilo-sebáceo (a via transanexial). Tudo isto, juntamente com o aumento da relação superfície corporal-peso em relação à de um adulto, faz com que possamos ter quadros graves ou, inclusivamente, mortais, nestas crianças, a partir da aplicação de cremes ou outras substâncias aparentemente inócuas. Na tabela seguinte apresentam-se alguns exemplos.

Composto Produto Toxicidade
Anilina Corante Metahemoglobinémia, morte
Mercúrio Limpeza de fraldas Rash, hipotonía
Compostos fenólicos Antisséticos, desinfetantes Taquicardia, sudorese, acidose metabólica, metahemoglobinémia, encefalopatia, morte
Ácido bórico Pós para o bebé Vómitos, diarreia, eritrodermia, convulsões, morte
Lindano Escabicida Neurotoxicidade
Ácido salicílico Hidratante queratolítico Acidose metabólica, salicilismo
Álcool isopropílico Antissético Necrose cutânea hemorrágica
Sulfadiazina de prata Antibiótico Kernicterus, argiria
Ureia Hidratante queratolítico Urémia
Povidona iodada Antissético Hipotiroidismo, bócio
Neomicina Antibiótico Surdez neurossensorial
Corticosteróides Anti-inflamatório Atrofia cutânea, supressão adrenal
Benzocaína Anestésico mucosas Metahemoglobinémia
Prilocaína Anestésico pele Metahemoglobinémia
Azul de metileno Corante Metahemoglobinémia

 

O cuidado da pele no recém-nascido.

A piel do recém-nascido aparece coberta de uma substância gorda de cor branca-acinzentada denominada vérnix caseoso, a qual representa uma proteção fisiológica que deriva parcialmente da secreção das glândulas sebáceas e, por outro lado, dos produtos de degradação da epiderme do bebé. Poderíamos dizer que é uma espécie de creme natural “resistente à água” que protege o feto submerso no líquido amniótico in útero. Alguns estudos sugerem ainda que não deveria retirar-se depois do nascimento devido a este efeito protetor (ir-se-ia libertando por si mesmo durante as primeiras semanas de vida).

Não restam dúvidas de que a pele é o nosso principal órgão protetor e de que qualquer interrupção na sua integridade é uma oportunidade para a irritação e a infeção. A importância dos cuidados no bebé reside no facto do recém-nascido não apresentar a flora protetora que têm os adultos, o cordão umbilical ser uma potencial porta de entrada de problemas e o bebé encontrar-se exposto ao contacto com objetos e pessoas potencialmente portadoras de agentes infecciosos.

Depois do nascimento recomenda-se retirar com delicadeza e com água os restos de sangue e mecónio, assim como o vérnix caseoso da cara, deixando que o resto se liberte por si próprio. Atualmente tende a curar-se o cordão umbilical com clorohexidina aquosa, evitando outros produtos, ainda que o álcool etílico a 70º também constitua um standard. Os pediatras recomendam que nos primeiros dias o cordão esteja o mais “ao ar” possível, pelo que se aconselha a utilizar roupa de duas peças em vez do tradicional body. Também não se recomenda o uso de toalhitas húmidas para a muda da fralda (pelo menos até serem um pouco mais velhos), mas apenas água e um sabão suave. Nos recém-nascidos não são necessários outros produtos, tipo cremes hidratantes, etc., os quais podem ser recomendáveis mais tarde, já com algumas semanas de vida. Dar-lhe banho todos os dias ou não? É melhor esperar que lhe tenha caído o cordão para dar-lhe o primeiro banho. A partir daí, isto já dava para um novo post.

Digam de vossa justiça,
– gostaram do post?
– porque acham que a Dra. Rosa faz esta última recomendação do banho após queda do cordão umbilical?


(agradecemos a honestidade intelectual de não colocar nos comentários respostas do post original 🙂 )

Origem do +dermapixel

Post original e créditos da foto para: Rosa Taberner

Traduzido por: Catarina Teixeira da Silva
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