+dermapixel #1r – médicos ou xamãs??

Efectivamente as lesões que o Dani tinha nos dedos eram simples verrugas vulgares, uma infecção cutânea produzida pelo vírus do papiloma humano.

Mas como comentámos, o problema não era nomear a maleita do nosso paciente, mas sim proporcionar-lhe um tratamento satisfatório. Aqui começam as complicações já que, ainda que as verrugas víricas sejam um problema mais que frequente na população geral (não só em crianças), se somos médicos sérios e escrupulosos com a evidência científica, resulta que apesar de existirem múltiplas opções terapêuticas, só a crioterapia “agressiva” e o ácido salicílico tópico (os queratolíticos de sempre) são superiores vs. o placebo na resolução destas lesões. Outras opções seriam a electrocoagulação ou o laser ablativo, mas a ponderar somente se estamos ante uma ou poucas lesões.

Quer dizer, segundo o “senhor Cochrane”, nem bleomicina, 5-fluorouracilo, dinitrolorobenzeno, interferões, nem ocluír as verrugas com fita adesiva (juro que é outra opção “séria” de tratamento), demonstraram a sua superioridade frente às duas técnicas mencionadas. Será que não funcionam mesmo? Não é bem isso, e temos muitas referências de revistas sérias que nos dizem o contrário, mas não estudos bem desenhados com um número suficiente de pacientes que nos permita afirmar com segurança que estes tratamentos são mais eficazes que não fazer nada.

E se os profissionais de saúde tentaram sem muito sucesso determinar a eficácia real dos diferentes tratamentos médicos, nem imaginem quando entramos no escorregadio mundo dos “remédios da avózinha”, mésinhas ou como lhe queiram chamar. E com a pele toda a gente tem uma opinião (com as verrugas ainda mais). No fundo não há muito a perder se não funciona… O segredo é deitar sempre a culpa a que “a criança tem as defesas baixas”. E o leque de tratamentos “naturais” é interminável: desde a homeopatia, celidónia, o dente de leão, alho, látex de figueira, baba de caracol (claro), óleo de árvore de chá, sumo de repolho, cebola crua, batata crua, óleo de rícino… Vamos, podemos atirar com tudo o que há no frigorífico, que se calhar resulta.

Na realidade a maior parte destes “tratamentos” baseiam-se em que muitos deles são potencialmente irritantes ou sensibilizantes. Mas há que ter sempre em conta que às vezes até a planta mais inofensiva pode produzir uma dermatite de contacto severa (e eguramente curar-se-á a verruga mas à custa de mais sofrimento que o necessário).

E os medicamentos? Também podem dar problemas, desde ser demasiado agressivos com a crioterapia (e a dor que provoca!), até uma sensibilização do adesivo dos emplastros de ácido salicílico. Nenhum tratamento está isento de riscos, mas seguramente quando o látex de figueira nos provocar uma fitofotodermatite, não iremos pedir explicações à avó. É sempre complicado valorizar a eficácia terapêutica de processos benignos e por definição autolimitados. O efeito placebo e a sugestão são bastante poderosos nestes casos, e as verrugas são o paradigma. Eu própria cheguei a constatar a remissão espontânea de lesões em crianças que não receberam nenhum tratamento e não sou nenhuma bruxa (estou a tirar a licenciatura mas tenho duas cadeiras por fazer).

E o que fizemos com o Dani? Em primeiro lugar e o mais óbvio: tentar que não trinque as unhas nem mexa nas lesões (mais fácil em teoria do que na prática). Aquilo de as verrugas se autocontagiarem quando sangram é um mito (o vírus está na pele e não no sangue; a “verruguemia” é negativa, calma), mas os pequenos traumatismos favorecem de facto a inoculação, e isto é especialmente evidente quando as lesões de localizam na zona periungueal. Para complicar a situação, uma crioterapia ou qualquer outro tratamento demasiado agressivo na base da unha pode danificar a matriz ungueal e acabar por provocar uma onicodistrofia secundária que pode ser persistente (mas a simples presença das verrugas também a pode provocar, pelo que é difícil basear-se nisso para tomar uma decisão). A primeira coisa a decidir é, uma vez mais, se vale ou não a pena tratar. E como neste caso as verrugas estavam-nos a fugir do controlo, começámos a fazê-lo mensalmente com sessões de crioterapia (não todas as lesões ao mesmo tempo) e paulatinamente, as lesões começaram a resolver. Pena que não tenha fotos pós-tratamento para vos mostrar.

Advertência: qualquer comentário a este post do tipo “ao meu filho coloquei-lhe sangue de unicórnio e desapareceram-lhe todas” deverá vir acompanhado do respectivo estudo a demonstrar efectividade. De outra forma, seriamos xamãs e não médicos 🙂

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