Infecção por Cuidados de Saúde Primários – Juan Gérvas

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Estudas medicina? Tens interesse nas pessoas no seu contexto? É um sinal de infecção por Cuidados Primários!

O nosso colega Juan Gérvas, médico de família espanhol e fundador da Equipo CESCA, escreveu um texto inspirador sobre os Cuidados de Saúde Primários. O texto surgiu em resposta a uma aluna de Medicina brasileira, Thamara Vieira Rolim (Universidade Federal de Ceará, Faculdade de Medicina de Sobral), que pediu um texto que “inspire e dê força para permanecer firme nesta rota [a de Medicina Geral e Familiar]”.

Um testemunho da colaboração internacional na era digital da aldeia global. 

E vocês quando foram infectados? Comentem e partilhem as vossas histórias.

O texto original (em espanhol) pode ser lido neste link, e a tradução (para português do Brasil) feita pela Thamara Rolim, abaixo neste post:

“Estuda medicina? Tem interesse nas pessoas em seu contexto? É um sinal de infecção por atenção primária (e você nem sabe)!

Juan Gérvas, médico geral aposentado, Equipe CESCA, Madrid, Espanha

Professor visitante de Saúde Internacional, Escola Nacional de Saúde, Madrid.

jjgervas@gmail.com www.equipocesca.org

@JuanGrvas

 

Quem estuda medicina aprende anatomia e outras ciências que fragmentam e compartimentam o ser humano (cardiologia, ginecologia, pediatria, pneumologia, psiquiatria, urologia, ortopedia, neurologia, oftalmologia, dermatologia, oncologia, etc.). Ao terminar os estudos, pensam que o todo nada mais é que a soma das partes. São geralmente ensinados que basta conhecer com precisão as partes (doenças dos órgãos e sistemas) para entender e dar  resposta ao sofrimento humano. São geralmente ensinados que “não há enfermos, mas enfermidades“.

Quem estuda medicina aprende nos hospitais as doenças raras, além da arte e da ciência no diagnóstico e tratamento das mesmas. É um pouco como aprender sobre os animais no zoológico, tão exóticos. A visão é atraente, mas está muito distante da sociedade e da cultura em que esses pacientes vivem, trabalham, divertem-se, sofrem e morrem.

Quem estuda medicina, decidiu em certo momento aprender sobre um ramo da ciência que se ocupa do sofrimento das pessoas, mas, nos hospitais, o importante é a doença e há pouca humanidade.

Nos hospitais, por exemplo, pouco ou nada sabemos sobre os objetivos de vida e as crenças dos pacientes. É raro que o impacto da atividade laboral seja analisado no processo do adoecer, ou que se considere a espiritualidade que permeia o ser humano e as raízes sociais que explicam em cada paciente o tipo específico de resposta à dor e ao sofrimento.

Nos hospitais, é raro escutar as histórias que pacientes e familiares têm para nos contar; basta o interrogatório clínico que se concentra na busca do diagnóstico e/ou nas respostas ao tratamento.

Quem estuda medicina aprende que a escuta consome tempo, que os pacientes não se concentram no que é importante, que suas “historinhas” carecem de interesse e que sua cultura não tem tanta importância. O habitual nos hospitais é que se ensine a falar, não a escutar.

Nos hospitais, não se costuma olhar nos olhos dos pacientes, exceto na oftalmologia, pelo zelo profissional, e, por isso, não se ensina o que fazer quando o paciente chora, por exemplo.

Tampouco interessa a mente e os sentimentos, exceto em psiquiatria e em seu diagnóstico do humor. As expressões de dor e a face entristecida são apenas sintomas e sinais, e não uma expressão de fragilidade e desamparo.

O coração é um órgão a ser submetido à ausculta e ao estudo por ECG e técnicas de imagem, como coronariografia e tomografia helicoidal. Apenas importa a taquicardia paroxística ventricular naquela jovem moça exposta a auscultação em grupo, com seus seios à mostra perante estudantes que são quase da sua própria idade.

O cérebro é uma massa que ocupa o crânio e é avaliado por EEG, ressonância magnética nuclear e tomografia por emissão de pósitrons. Ignoram-se, por exemplo, as experiências, temores e fantasias do paciente com epilepsia antes, durante e depois de suas crises.

A vagina e o pênis são interessantes enquanto biologia, mas é raro falar sobre sexologia e até mesmo sobre sexo. Nos hospitais, essas questões são consideradas quase indecentes, mesmo ante uma paciente com neurossífilis ou um rapaz homossexual com SIDA e pneumonia por Pneumocystis jiroveci. É científica e biológica a atenção destinada mesmo a uma mulher estuprada e violada, pois importam mais as lesões e os danos orgânicos que sua comoção mental e espiritual.

A mulher grávida ou puérpera é apenas um tipo de paciente com possibilidade de complicar. O aborto espontâneo geralmente resulta em curetagem, quase sem ser conversado (e sem considerar sequer o luto consequente, terrível em muitos casos). O parto não é da mulher, e sim do profissional, que então o abrevia e simplifica com procedimentos médicos como a episiotomia e a cesárea.

Nos hospitais, é difícil tratar com dignidade os pacientes, nem mesmo oferecer um simples aperto de mão ou perguntar como deseja ser chamado (“Seu João”, “João”, “Sr. Fidelis”, “Joãozinho”, etc). Muitas vezes nos hospitais nem sequer sabem seu nome; é “o paciente do leito 126″, “o paciente com Doença de Huntington”, “o paciente com osteossarcoma”, “o caso de sarcoidose,” ou “Wegener” ou “o próximo!”.

Claro, há raros estudantes que olham nos olhos os pacientes, que sabem escutar, que se perguntam sobre o impacto da doença na vida dos pacientes e seus familiares, que são curiosos e querem saber mais sobre o contexto social e cultural dos enfermos. São estudantes capazes, por exemplo, de compreender o luto na mulher por trás de um aborto espontâneo.

Estes estudantes estão infectados! Infectados por Atenção Primária. Acreditam que “não há enfermidades, mas enfermos”, de forma que cada paciente é distinto e único. Eles sabem, por exemplo, que o estupro não é um simples episódio de violência, mas um mal estrutural no qual a vítima pode ser estigmatizada como culpada. Eles sabem que a doença é muitas vezes de origem social.

Esses estudantes são conscientes de que o médico é um profissional de saúde altamente qualificado, capaz de tomar decisões rápidas e geralmente acertadas frente a problemas de saúde complexos, em condições de grande incerteza, para o que se necessita uma contínua atualização. Este profissional estabelece um compromisso tácito com o paciente para lhe oferecer o melhor de seu conhecimento e de sua experiência. Assim, por exemplo, compreende a doença que chamamos de esquizofrenia e é capaz de ajudar os pacientes a viverem com suas limitações (alucinações auditivas em alguns casos), sem tentar anulá-las com tratamentos excessivos que transformam o paciente em um zumbi.

Esses estudantes sabem que de um bom médico que tenha reputação profissional e social se espera: 1) capacidade de realizar diagnósticos precisos e oportunos, 2) utilização prudente dos recursos preventivos, diagnósticos, terapêuticos e de reabilitação para maximizar os benefícios e minimizar os danos e 3) habilidade para responder adequadamente às necessidades dos pacientes complexos em situações reais de múltiplas limitações.

Há somente um médico especialista capaz de somar os aspectos orgânicos, psicológicos e sociais das várias doenças e problemas de saúde dos pacientes: o médico de família (médico de família no Brasil e na Espanha, médico geral em países como Noruega e Reino Unido)¹. Por exemplo, apenas o médico de família pode coordenar a atenção a pacientes muito complexos, mas muito frequentes, como aqueles que sofrem ao mesmo tempo com diabetes, hipertensão, artrose do quadril e insuficiência cardíaca e ainda vive sozinho, recebendo uma pobre pensão, estando confinado a sua casa. Esses pacientes também podem sofrer problemas de saúde agudos e frequentes, como gripe, entorse de tornozelo e ferida inciso-contusa na panturrilha. Não é incomum que tais pacientes tomem mais de quatro medicamentos e que, em alguns casos, sofram efeitos adversos dos mesmos. Além disso, esses pacientes, extremamente complexos se apresentam de todas as idades, pois a multimorbidade aumenta com a idade, mas muitas vezes se apresenta desde antes do nascimento. Na maioria das vezes, a complexidade inclui questões sociais como pobreza, família desestruturada, desemprego e violência.

Quem pode atender com certas garantias científicas os pacientes em sua complexidade? A resposta é exatamente este aluno infectado por Atenção Primária, que um dia tornar-se-à Médico de Família.”

 

O texto foi preparado para o 13º Congresso Brasileiro de Medicina de Família e Comunidade, no VI Encontro Nacional das Ligas Acadêmicas de Medicina de Família e Comunidade, a 9 de Julho em Natal, Brasil.

Para saber mais, do mesmo autor

http://equipocesca.org/por-que-ser-medico-si-ya-hay-internet-carta-abierta-a-una-estudiante-de-primero-de-medicina/

http://equipocesca.org/como-ser-estudiante-de-medicina-critico-y-no-perecer-en-el-intento/

http://equipocesca.org/comunicacion-y-atencion-primaria-para-alumnos-de-medicina/

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¹ Chamado médico de cabeceira, o médico de família é o médico que atende ao paciente e a sua família, em todos os casos e situações (no consultório e no domicílio do paciente, desde a concepção até a morte, e desde a saúde até a doença) e que solicita o trabalho de consultor do especialista focal em situações episódicas que requerem tecnologia ou conhecimentos específicos. O nome “médico de cabeceira” refere-se à visita domiciliar, a estar perto da “cabeceira” da cama do paciente; também se refere ao conselheiro muito próximo à família, que se frequenta e aprecia. O médico geral tornou-se “médico de família” nos EUA, na década de 60 do século XX, com a recusa da Comissão de Especialização em reconhecer como uma especialidade o que se dedicava ao geral. O nome “médico de família” é usado oficialmente no Canadá, Brasil e Espanha e outros países. Persiste o nome oficial de médico geral no Reino Unido, Irlanda, Holanda, Noruega, França, Nova Zelândia e outros países. Na União Europeia (27 países, 500 milhões de habitantes), para trabalhar no serviço público de saúde é necessário o título de especialista em Medicina Geral-de Família (residência de três anos, pelo menos).

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